Gestão pública em São Paulo: reversão da descentralização para as subprefeituras
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Pedro Aguerre*
Hoje daremos continuidade à discussão do tema
da gestão pública na cidade de São Paulo. No comentário anterior se fez menção a
importante Seminário feito pela Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São
Paulo, no início de maio, que se mostrou muito rico em discussões sobre os
desafios para a gestão da cidade. O seminário recuperou o debate sobre a
organização político-administrativa do Município, dividido em 96
distritos e em 31 subprefeituras, recuperando seu sentido original e suas
potencialidades para a melhoria das condições de vida para a população.
Nessa oportunidade muitos palestrantes e
participantes fizeram coro crítico ao caráter fortemente centralizador
da atual gestão municipal. Junto com a redução dos recursos
destinados às subprefeituras, observou-se o progressivo esvaziamento de suas
prerrogativas, afastando ainda mais o Estado do cidadão. Em contraposição,
saudamos, no mesmo comentário, a iniciativa de alguns combativos vereadores no
sentido de incidir junto ao Supremo Tribunal Federal, a fim de tentar
desbloquear os empecilhos para a futura implantação dos conselhos de
representantes nas subprefeituras. O Conselho de Representantes é
um instituto previsto no Plano Diretor e que sofreu uma inusitada ação de
inconstitucionalidade por parte do Ministério Público, no início da Gestão
Serra-Kassab, bloqueando a discussão de sua implementação, como era do legítimo
interesse da população naquela ocasião. Perceba-se, aliás a
morosidade da justiça em um assunto de franco interesse público, uma vez que
passaram-se duas gestões municipais sem a conclusão da ação!!
Toda esta questão da gestão pública, assim, é
de fundamental importância para a vida dos cidadãos, uma vez que indica como
estão sendo canalizados os recursos e quanto chega de fato a cada região,
mostrando, de forma bastante aproximada, quais são as efetivas prioridades dos
governantes.
Destaco dois tipos de problemas
principais, o primeiro quanto ao tamanho da população das
subprefeituras, gerando imensas cidades sem governo, um enorme déficit de
cidadania: das 31 subprefeituras, dez delas tem, cada uma, entre 450 mil e 670
mil habitantes. São números monumentais, que constariam em uma lista das 50
cidades mais populosas do País. Nos referimos, em ordem decrescente a Capela do
Socorro, Campo Limpo, M´Boi Mirim, Vila Prudente/Sapopemba, Itaquera, Penha,
Pirituba/Jaraguá, São Mateus, Ipiranga e Freguesia/Brasilândia, subprefeituras
situadas nas regiões periféricas sul, leste e noroeste e sudeste. Se fossem
cidades, teriam câmaras municipais, orçamento próprio, movimentos sociais
reivindicando melhorias, lutando por transparência, insistindo na participação e
no controle social das políticas, e seus governantes teriam também obras e
realizações a mostrar a cada gestão. No entanto estas dez subprefeituras, assim
como as outras 21, contam apenas com uma subprefeitura precária,
esvaziada, sem mecanismos de escuta da população, sem planejamento próprio, sem
prerrogativas nem condições de atuar em áreas fundamentais como assistência
social, moradia, cultura, o que dirá de saúde, educação, etc., sem um
planejamento claro à disposição da população, sem Planos de Bairro.
Cada subprefeitura teve inúmeras trocas de subprefeito, e de seus
cargos de confiança, e os ocupantes dos cargos muitas vezes nem conhecem
profundamente a região para a qual foram designados...
Quanto ao segundo aspecto, a análise dos dados
da despesa do orçamento fiscal segundo a distribuição
institucional da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2011,
mostrou que, em geral, as subprefeituras mais populosas eram as
que tinham o menor orçamento por pessoa (per capita). Essas dez
subprefeituras nominadas, que estão entre as que têm as maiores carências e
demandas por políticas públicas municipais, são as que têm os menores orçamentos
por habitante, entre R$ 75 e 100 por pessoa/ano, contra valores que estão entre
a R$120 e 160, nas demais.
Mas o ponto central do comentário vem do fato
de que, na realidade atual, o orçamento das subprefeituras está abaixo
de três pontos percentuais do Orçamento, quando já chegou a mais de
20%. E, o que causa ainda mais preocupação, é a exclusão das periferias
do ótimo momento fiscal extremamente positivo vivida pela Prefeitura de São
Paulo, que teve crescimento real do orçamento nos últimos anos, superando a
enorme crise fiscal e o baixo orçamento uma década atrás, e que hoje representa
uma arrecadação de mais de R$ 35 bilhões de reais.
A prefeitura alega que há muitos investimentos
em curso originados em órgãos centralizados sendo aplicados nessas regiões. É
fato, assim como qualquer outra gestão terá feito investimentos que não passam
pelas subprefeituras, como obras viárias, de saneamento básico ou de coleta do
lixo, saúde e educação, ou a construção de creches municipais. Mas não
fica claro o quanto é investido e aonde. E também se nota, muitas
vezes, um enorme desconhecimento da população de ações e obras que o governo
municipal alega estar fazendo e a população não foi nem consultada, nem os
planos foram mostrados, mesmo quando movimentos sociais reivindicam e exigem
essa transparência.
E essa transparência
poderia ser maior, se tivesse sido colocado em prática a Lei 14.173, que
desde 2006 determina a divulgação de dados sobre a qualidade dos serviços
públicos municipais. Só após a Rede Nossa São Paulo
protocolar ofício cobrando a colocação em prática dessa lei é que a Secretaria
de Planejamento, Orçamento e Gestão, se pronunciou afirmando ter desenvolvido um
sistema de indicadores de desempenho e resultados da gestão municipal para medir
a qualidade dos serviços públicos. Não é sem tempo, e merece reconhecimento,
embora se torne duvidoso que possa servir para avaliar a gestão que já se
encerra..
Professor da PUC-SP, colaborador da Pastoral Fé
e Política e da Escola de Governo de São Paulo
Pedro, excelente texto. Gostaria muito de compartilhar com você essa palestra brilhante:
ResponderExcluirhttp://www.youtube.com/watch?v=YpKbO6O3O3M
Forte Abraço,
Paulo Bueno