A importância da reforma política à luz da cobertura dosescândalos políticos e das eleições municipais
http://pastoralfp.blogspot.com.br/2012/08/a-importancia-da-reforma-politica-luz.html
Pedro Aguerre*
O bombardeio da mídia em relação ao processo da Ação Penal 470,
apelidada de mensalão,
continua. As notícias tratam os acusados como condenados, embora se esteja numa
etapa bem anterior e ainda distante daquilo que é chamado de veredicto final.
Palavras duríssimas proferidas pela acusação do Procurador Geral são repetidas
como verdade absoluta – sem direito a defesa. Os meios de comunicação noticiam
e exploram cada detalhe do julgamento do Supremo Tribunal Federal. O debate
visto nos últimos dias sobre a forma como votarão os ministros, por exemplo, conduziu
a uma situação quase desrespeitosa em relação à mais alta instituição
judiciária. Embora este
julgamento seja um tema de grande importância que mereça o acompanhamento
detalhado dos debates e do longo processo, a população pode ficar com uma
impressão errada do processo. É
como se tivesse sido criado um ambiente de linchamento moral preventivo, ou
seja, se o resultado não agradar aos principais formadores de opinião, este
poderá ser contestado por essa mesma mídia, responsabilizando-se os juízes da Alta
Corte, que seriam acusados de parcialidade, de atenderem interesses escusos.
Para esse fim, segundo Marcos Coimbra, do Vox Pópuli, a imprensa publicou 65
mil textos sobre esse assunto. Para cada 10 segundos de comentário neutro, os
meios de comunicação dedicaram 1500 segundos negativos.
Em
contrapartida, as questões mais profundas que estão por trás deste processo não
são apresentadas com o mesmo vigor, ou seja, a opinião pública não está sendo
informada que as leis que regem o exercício da atividade política favorecem de
forma intensa o financiamento
ilegal de campanhas políticas. É por isso que os mal chamados ‘mensalões’
se sucedem, começando por um partido, seguindo por outro, até o caso mais
recente, que envolveu o DEM, do Senador Demóstenes Torres e do Governador
Arruda, que também teve o mandato cassado, revelando uma situação insustentável
de corrupção no Distrito
Federal, até chegar à situação de crime
organizadogeneralizado mostrada na CPI do Cachoeira.
No caso dos
processos eleitorais, o professor Wanderley Guilherme dos Santos explicou
recentemente que alegislação eleitoral transformou
as eleições em um multimilionário mercado de marquetagem
eleitoral, em que o tempo de televisão tornou-se um ativo eleitoral negociável,
expulsando as campanhas das ruas e elevando a televisão ao principal canal de
comunicação dos candidatos com as grandes massas. Ou seja, o mercado televisivo criado pela
legislação desequilibrou o pleito e ampliou como nunca o poder econômico em
eleições. É esta a lógica que modificou a organização das coligações
eleitorais, deixando apenas de tentar reunir os aliados mais programáticos, e
tendendo a aumentar ao máximo o tempo de televisão, tirando esse tempo dos
candidatos adversários.
As campanhas eleitorais tendo como principal meio de
divulgação os meios de comunicação e como forma de viabilização o financiamento
privado das campanhas, portanto, formam um coquetel explosivo, que favorece os maiores partidos e
dificultam a sobrevivência dos partidos que não se coligam. Ao mesmo tempo,
a busca incessante de recursos pode fazer certas candidaturas buscarem ou
aceitarem recursos de pessoas ou empresas financiadoras mal intencionadas,
conforme a preocupação do líder empresarial Oded Grajew, citada em nosso último
comentário, que pode conduzir efetivamente ao financiamento ilegal de
campanhas...
Toda esta
realidade deveria conduzir a uma discussão mais séria da reforma política, de forma a
ampliar aparticipação e o controle social da
população sobre a política, possibilitando discutir uma forma de financiamento público das campanhas que torne mais eficiente o processo
eleitoral. O custo para o País
do sistema atual tornou-se muito alto pois fragiliza os partidos e pode
comprometer os governantes com as prioridades de seus financiadores, dando as
costas para as demandas da população!!
Recentemente
Frei Beto, reforçou, contudo, que a
participação da sociedade é o melhor antídoto contra esta situação: “Os
candidatos devem ser chamados para debater as suas propostas porque essa é a
maneira de formarmos uma consciência política de qualidade, de encontrarmos os
critérios de uma participação política ativa e escolhermos melhor em quem
votar”, disse.
Da mesma forma,
se opôs ao discurso
oportunista pela anulação do voto: “O voto é importante para configurarmos
um país melhor. O Brasil depende dos municípios, que são a base da sociedade. É
no município que está o ensino fundamental, o posto de saúde e o transporte
público coletivo. Se queremos melhorar a vida de cada um de nós na cidade,
temos que estar atentos às eleições”, opinou.
*Professor da
PUC-SP, colaborador da Pastoral Fé e Política e da Escola de Governo de São
Paulo
Programa da
Pastoral Fé e Política exibido na Rádio 9 de julho em 22/08/2012.
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